Poucos artistas têm o triunfo de ter iniciado uma revolução. Em cima de um carro de som e ao lado dos irmãos Macêdo, Moraes Moreira tornou-se o primeiro cantor de trio elétrico e marcou a história do Carnaval da Bahia com as suas composições, encantando multidões. Coincidentemente, as últimas apresentações da sua carreira foram na festa momesca, em Salvador. Instrumentista e filho do idealizador da Fobica, Armandinho Macêdo relembra o início eletrizante da trajetória  de Moraes junto à maior festa de rua do mundo.

Em 1976, já tendo abandonado os Novos Baianos, Moraes deu voz ao Trio Elétrico Dodô & Osmar com o disco Jubileu de Prata. “Moraes pegou um microfone que tínhamos com um som horrível e cantou essa música algumas vezes. No ano seguinte, fez de novo, cantando outras coisas. Foi aí que meu pai batizou ele como o primeiro cantor de trio elétrico. Tudo isso é por causa de Moraes, ele ensinou muito. Todo mundo que veio depois imitava a voz dele e a guitarra baiana da gente”, recorda Armandinho. 

O guitarrista conta que falou com Moraes pela última vez na sexta-feira: “Ele me ligou para bater papo, ficamos mais de uma hora conversando”. Armandinho diz que na noite de domingo para segunda sonhou com Moraes. “Sonhei que fazíamos um show juntos e foi ótimo, um clima maravilhoso. Quando acordei, veio a notícia. Acho que ele veio se despedir de mim”, diz, emocionado. 

A amizade entre Armandinho e Moraes começou antes mesmo dele virar o cantor ‘oficial’ do trio elétrico. Com Moraes saindo dos Novos Baianos e Armandinho formando A Cor do Som, fizeram muitos shows juntos no Rio e a relação só se estreitou. “Meu pai costumava dizer que Moraes era como um filho dele e eu o tinha mesmo como um irmão. Moraes dizia que o Trio Elétrico Armandinho Dodô & Osmar era a segunda família dele, depois dos Novos Baianos”, lembra.

O legado de Moraes Moreira vai além de ser “a primeira voz do trio elétrico”. Foi ele que introduziu o ijexá na música baiana da década de 1970. “Bem antes da axé music, que só veio ter isso registrado depois de 1982”, aponta Armandinho. Curador do museu Casa do Carnaval e vice-reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Paulo Miguez não esquece da emoção de vê-los tocar naquela época e descreve como “memoráveis” os encontros de trio na Praça Castro Alves

“Muitos trios participavam, mas sem dúvida eles foram os protagonistas. Moraes deixou uma contribuição fantástica, com canções antológicas. Ele confirmou com as suas canções a relação de carinho e respeito com o Carnaval da Bahia. Não há a menor possibilidade de um Carnaval em que não se pule ao som de músicas como Chão da Praça e Pombo Correio”, avalia Miguez.

Poetização do trio

Apresentado a Moraes no verão do início década de 80, o arquiteto Zulu Araújo, ex-diretor do Olodum, conta que o cantor sempre vinha a Salvador nesse período para viver a “gandaia” e procurava uma casa para alugar que fosse longe do burburinho. Encarregado de ajudar a encontrar o imóvel, eles desenvolveram uma amizade e Moraes acabou ficando na casa de Zulu:

“Ele era apaixonado pelo nosso carnaval e conseguiu introduzir nele a poesia. No meu entendimento, ele consegue fazer essa grande revolução. Carnaval era sempre muito ritmo, batucada, percussão… Ele introduziu a letra, a voz, as pessoas passaram a poder pular e cantar. Mas ele não foi só o primeiro cantor de trio, foi o cara que trouxe a poesia para o Carnaval”, descreve.

Esse poetização do trio elétrico, para Zulu, promoveu uma espécie de cessar-fogo na festa de rua, marcada não só pela alegria, mas também pela pancadaria. Na visão do arquiteto, a  folia da época era dada como “coisa para homem” devido à violência: “A poesia de Moraes pacificou o pulo, romantizou a relação do público com o trio porque adocicou a música trieletrizada da Bahia”.

Apoio aos afoxés 

Ele lembra ainda que os trios costumavam abafar o brilho dos os afoxés e blocos afro, marcados pelo uso apenas da percussão. Apesar de estar em cima do trio (símbolo do poder sonoro), Moraes era um dos poucos artistas que respeitava essas entidades: 

“Ele pedia para que os trios parassem de tocar quando desciam os Filhos de Gandhi, ele reverenciava essas entidades e dizia que sem elas o Carnaval da Bahia não existiria. O trio era uma arma da desigualdade e ele tinha essa postura marcante de ser o inverso. Essa postura revelava o respeito e a prática da diversidade cultural, que é a virtude da nossa festa”, conta, recordando da música Eu Sou Negão, de Gerônimo, que traduz a hostilidade contra os afoxés.

Tendo promovido essas movimentações na Música Popular Brasileira, Zulu diz que o tem como um ícone que soube da sua responsabilidade com a arte e que admira a simplicidade que o cantor manteve ao longo da carreira, sendo um dos poucos “que não foi tocado pelo chilique comum às estrelas da época, carregando uma relação positiva com o sucesso”. Sem poder se despedir do amigo por causa do cenário de pandemia pelo novo coronavírus,  o arquiteto lamentou não poder dar um último abraço. “Se eu pudesse, pegaria um avião e iria ao Rio de Janeiro, estou sentindo profundamente”, disse.

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(Foto: Arquivo CORREIO)

Ainda como cantor dos Novos Baianos

Ainda como cantor dos Novos Baianos (Foto: Arquivo CORREIO)

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(Foto: Arquivo CORREIO)

Último carnaval

Produtor dos últimos três carnavais de Moraes, o músico Valdir Andrade conta que o artista era incansável em revelar seu amor pela festa popular e suas reinvenções. Entre as novidades do Carnaval, o trio pranchão era o que mais tinha lhe agradado devido à possibilidade de maior proximidade com o público.

Segundo Valdir, Moraes estava feliz com os últimos rumos da folia baiana e se sentia muito realizado com o projeto Pôr do Sol na Praça, onde cantou um repertório de 2h de canções carnavalescas. “Ele era apaixonado pela Praça Castro Alves e ficou encantado com a obra, as escavações. Ficou feliz com a ideia de ter algo ali embaixo. Disse que quando a obra ficasse pronta, queria tocar na inauguração e teve o prazer pelo menos de fazer a última apresentação da vida dele lá”, conta o produtor.

Após ter feito um Carnaval animado, era natural que Moraes, um homem ativo e das multidões, estivesse triste com o estado de pandemia em que o país chegou. De acordo com Valdir, o cantor estava respeitando a medida de isolamento e vinha preocupado com as pessoas. Na quarentena, escrevia um poema por dia. Tinha planos para esse conteúdo. Queria que o filho Davi, pusesse melodia. Pensava em encontrar um artista visual para criar umas animações para as letras.

“De todas as dores do momento, além da perda, é difícil superar isso de não poder dar a ele às multidões uma despedida do tamanho que ele merecia. Nesse momento de isolamento, vamos fazer um movimento virtual para saudá-lo. O meu feed está inundado dele, mas se não fosse essa pandemia, a gente estaria num velório grandioso como foi o de Raul Seixas, como eles mereciam”, lamentou o produtor.

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