O grupo alemão Kraftwerk influenciou fortemente a música popular como pioneiros da música eletrônica, mas também estavam à frente de um projeto que durou décadas: cantar sobre os progressos da modernidade. No último dia 30 de abril, um dos fundadores da banda, Florian Schneider, morreu aos 73 anos vítima de um câncer —a notícia foi divulgada só na semana passada.

A banda tratou de homens-máquinas, computadores —antes do PC—, robôs e demonstrou preocupação com questões ambientais e de consumismo. A ideia deles era mostrar uma nova Alemanha, que superava o trágico passado nazista. Assim, o Kraftwerk antecipou tendências e se mostrou na vanguarda não apenas do som, mas de questões que hoje são fundamentais na sociedade.

“Eles são sempre vistos como ‘futuristas’, mas não creio que essa fosse a sua força motriz. Eles acreditam apenas na relação serena, harmônica e funcional entre homem e máquina”, afirmou o jornalista inglês David Stubbs em seu livro “Future Days: Krautrock and the Building of Modern Germany”

Homens-máquinas

O Kraftwerk é mais do que uma banda, é um conceito. A frase é do próprio Florian Schneider. Segundo ele, a ideia por trás do grupo é a “Die Menschmaschine”, ou, em bom português, a máquina humana.

O sétimo álbum da banda tem esse nome e traz uma música com o mesmo título. Na versão em inglês, “The Man Machine”, o pseudo ser-humano ou o super ser-humano. A ideia não é ser robô, mas não é ser 100% humano. É um híbrido entre gente e máquina abastecido sempre por uma usina elétrica, ou “Kraftwerk”, em alemão.

A performance de palco do Kraftwerk também tem muito de “homem-máquina”, com seus quatro integrantes humanos vestindo a mesma roupa, se movendo de maneira minimalista, com uma música que mais se parece com algo gravado e quase não se comunicando com a plateia. Como se as quatro pessoas e seus instrumentos fossem uma máquina.

Em resumo, eles estavam antecipando o transumanismo, tendência que busca desenvolver um “hiperhumano” imortal com a ajuda da tecnologia.

Robôs

No mesmo álbum “Die Menschmaschine”, o Kraftwerk apresentou a música “The Robots”, ou os robôs. “Funcionamos de maneira automática e dançamos mecanicamente”, cantam antes de dizer em russo: “Sou seu escravo. Sou seu trabalhador.” É basicamente uma ode a essa invenção, que serve para nos substituir nas tarefas difíceis.

No clipe da canção e ao vivo, os quatro membros da banda vão além do “homem-máquina” e aparecem nesta música como bonecos metálicos com moldes de suas cabeças. Se agora durante a quarentena, já é possível ter um robozinho aspirando o chão da sua casa, de certo modo o Kraftwerk já previu isso em 1978.

Computadores

Vivemos a era digital. O que seria de você, de mim ou do UOL sem nossos celulares, computadores e gadgets? Em 1981, o Kraftwerk discutiu o surgimento dessa era no álbum “Computer World”. As sete músicas falam do assunto. “Negócios, números, dinheiro, pessoas. Mundo dos computadores”, diz a música título.

“Quando Computer World foi editado em maio de 1981, a IBM ainda não tinha criado o computador pessoal que viria a revolucionar as nossas vidas. E eles cantavam ‘I programme my home computer’ ou antecipavam o uso da tecnologia para propósitos de vigilância pelos governos”, afirmou o professor alemão Uwe Schutte, em reportagem do jornal português “Público”.

“Pocket Calculator” fala de uma calculadora de bolso: “Estou somando e subtraindo. Estou controlando e compondo”, diz a canção. Há quase 40 anos, os alemães já estavam praticamente antevendo a criação e o uso dos celulares.

Radioatividade

Em 1976, a banda lançou a música “Radioactivity”. Era uma canção sem juízo de valores sobre a radioatividade, citando que foi “descoberta pela madame Curie” (Marie Curie, inventora do termo). Mas em 1991, se transformou em um protesto contra o excesso de usinas e bombas nucleares, com seu refrão nos shows passando a cantar “Stop Radioactivity”.

Além disso, a versão ao vivo agora cita cidades marcadas pelo uso nuclear, como Chernobyl, Hiroshina e Harrisburg, e fala em populações contaminadas.

Transportes

Falar sobre transportes é algo recorrente nas músicas do Kraftwerk. Se hoje, dentro da discussão de cidades inteligentes debatemos o papel dos transportes, já na década de 1970 os alemães falavam de carros, estradas e ferrovias. Temas, digamos, bem alemães.

O disco mais celebrado dos alemães tem como título e música principal “Trans-Europe Express”, uma ferrovia que corta o continente europeu. Outra canção icônica é “Autobahn”, que é como são chamadas as estradas alemãs sem limite de velocidade em alguns trechos. A ideia da música é justamente fazer o ouvinte se sentir dirigindo em uma dessas rodovias.

Ralf Hutter já chegou a afirmar que, ao ouvir “Autobahn” e então sair para dirigir, é possível descobrir que o carro é um instrumento musical.

Consumismo

A relação entre o homem moderno e o consumo desenfreado também foi tema das canções do Kraftwerk. Na já clássica “The Model”, que descreve a vida de uma modelo, a banda cantava: “Ela é bela, e por sua beleza temos que pagar.”

Schneider também mostrou sua preocupação com o consumismo e sua relação com o meio ambiente quando encabeçou uma campanha contra o uso do plástico, com a música solo “Stop Plastic Pollution”.

Do espaço aos esportes

O Kraftwerk tratou de outros assuntos contemporâneos em suas canções: o espaço em “Spacelab”, que já foi tocada até mesmo com astronauta em órbita (veja abaixo); a vida na cidade grande —em “Metropolis” e “Neon Lights”— e o ciclismo, um esporte que alia resistência física, ritmo mecânico e preparo mental. Fizeram um disco inteiro só para essa atividade, “Tour de France Soundtracks”.

Isso sem contar as inovações tecnológicas presentes nas músicas, com o uso de instrumentos eletrônicos e caseiros, já antecipando a tendência dos makers. O tom de voz robótico era criado com um vocoder, instrumento que sintetiza a voz humana e foi feito sob medida para eles por dois engenheiros. As baterias eletrônicas eram patenteadas por membros da banda e seus sintetizadores e sequenciadores eram alguns dos equipamentos sonoros mais avançados dos anos 70.

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